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Não
valorizamos
suficientemente
a
capacidade
que
algumas
pessoas
desenvolvem
para
tocar
nas
coisas
com
leveza.
Abordar
um tema
qualquer,
dirigir-se
a outra
pessoa
ou
responder
à
determinada
pergunta
são
situações
cotidianas
bastante
simples
que nos
permitem
distinguir
as
pessoas
delicadas.
A
delicadeza,
não
obstante,
pode
realizar-se
em
inúmeras
outras
dimensões
da
existência
e,
possivelmente,
constitua
uma
espécie
de
ângulo
pelo
qual se
pode ver
o mundo.
Se
estou
certo,
há
formas
delicadas
de
compreender
o que
nos
cerca.
Estas
maneiras
pressupõem
uma
aproximação
cuidadosa
dos
fenômenos
de tal
forma
que seja
possível
fazer
emergir,
como
conhecimento,
não
apenas
aquilo
que se
concebe
como
novo,
mas
aquilo
que se
convencionou
chamar
de
surpresa.
Talvez,
algo da
delicadeza
se
vincule,
enfim,
à
epistemologia.
Há uma
forma
delicada
de amar
que deve
pressupor
uma
espécie
de
"escuta"
radical;
vale
dizer:
uma
capacidade
de sair
de si
mesmo,
de
descentramento,
para
incorporar
a
situação
vivida
pelo
outro
como um
problema
seu. O
amor
delicado
funda um
encantamento
e,
talvez,
possa se
prolongar
no tempo
para
além
das
circunstâncias
que o
produziram.
Há,
seguramente,
uma
forma
delicada
de
viver,
de
lutar,
de
escrever,
de
divertir-se,
de
cuidar
das
crianças.
Há,
também,
uma
forma
delicada
de
morrer.
O
ambiente
que nos
cerca
pode
favorecer
essa
disposição
ou
impedi-la
em
definitivo.
Entre
nós - e
possivelmente
mais
ainda no
RS -
delicadeza
é algo
que
parece
não
informar
algo
importante.
Há, por
certo,
quem
imagine
que a
própria
definição
de
virilidade
deva
excluir
a
delicadeza.
Para
esses, o
masculino
pressupõe,
pelo
contrário,
a rudeza
e, não
raro, a
disposição
violenta,
a
intolerância
e uma
atração
incontornável
pela
vulgaridade.
Penso
que essa
tradição
seja um
mal e
acredito
que a
realidade
que nos
cerca
poderia
ser
muito
melhor
caso
valorizássemos
a
delicadeza.
Digo
isso,
primeiramente,
para mim
mesmo.
Muitas
vezes,
perdi a
chance
de ser
delicado
e
acredito
que,
normalmente,
não o
sou o
quanto
deveria.
Tenho,
felizmente,
conhecido
muitas
pessoas
delicadas.
Pensando
nelas,
vejo o
quanto
devo
negar de
mim
mesmo.
Nesse
caso,
para
além da
sensibilidade
estética,
falamos
de uma
extraordinária
capacidade
teórica
que faz
com
Muitas
pessoas
parecem
ter essa
facilidade
e lembro
delas
com
frequência.
Não as
cito
porque
seria
uma
indelicadeza
com
todas as
demais,
mas
gostaria
de
homenageá-las
de
alguma
forma,
daí
esse
texto,
nessa
noite
fria em
Oxford.
A
questão
parece
ser:
não se
engane,
a
delicadeza
nunca é
tão
somente
um
"revestimento"
, um
vazio em
si
mesmo.
Ela é
sempre a
forma de
um
conteúdo
compatível.
Oscar
Wilde
tem uma
frase
que diz,
mais ou
menos, o
seguinte:
-"Apenas
pessoas
superficiais
não se
deixam
levar
pelas
aparências".
Penso
que ele
tinha
razão.
A
delicadeza
é um
traço
da
cultura
e sua
ausência
costuma
assinalar,
tão
somente,
a
banalidade
ou a
crueldade
que nos
foram
deixadas
como
herança.
Colaboração:
Cibele
Menini
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